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A Moça e o Mar (Adelino Netto)

Sentada em seu selim de couro com borracha, provavelmente vindo lá dos lados da praça, pedala pela calçada da orla a moça de alma elegante.

Do bar como não vejo a areia, a “miragem moça” se funde com o mar, misturando pernas e sorvete de caramelo com cauda de sereia.

O cheiro de suor perfumado invariavelmente cruza a pista e invade o copo que eu utilizo para aumentar a vista.

Em nosso momento diário, a bicicleta, as pernas da moça e o mar se encontram com a caneta entre meus dedos para uma viagem sem fim.

E eu fico a acreditar que, em segredo, a moça pedala pra mim.

A moça e o mar

Imaginários – Adelino Netto em 22.11.2014

Desenho – Magali Spada

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Pequeno Cordel para um Homem Menino (Adelino Netto)

Montado em seu sonho valente

Em um cometa raro reluzente

Que subiu ao invés do contrário

Partiu o último menino do bando de  Januário

Ariano amigo e companheiro

Quando chegares ao céu

Procure logo Conselheiro

Libere toda a artilharia

Folguedo de raio e trovão

E peça a Nossa Senhora

Que transforme as lagrimas da gente

Em chuva pra molhar o sertão

Imaginários – Adelino Netto em 22/07/2014.

De um sonho com Ariano onde éramos meninos 

Foto: Ariano Bebe – acervo pessoal

ariano_bebe_acervo_pessoal

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Sonho de Amor (Adelino Netto)

Canção Sonho de Amor*

É assim sempre assim

Minha vida é trabalhar

Quando é que um amor vem me buscar

É assim sempre assim

Minha vida é trabalhar

Quando é que um amor vem pra ficar

Eu acordo sempre cedo

Nem vejo o dia nascer

E quando ele vai embora

Ainda tenho o que fazer

Queria perder o medo e sem ele ter poder

Para me encontrar com o tempo

Adiar o entardecer e ver o sol

Descansar no mar

Dando seu lugar as estrelas

E olhar pro céu

Como a esperar

Que de algum lugar

Alguém venha pra mim

Venha pra mim

Venha pra me

Buscar…

Me buscar..

Para ouv ir a canção clik no link abaixo…

Desenho  – Magali Spada

Imagem

Sonho de Amor – Adelino Netto *Canção Composta originalmente par o Espetáculo Teatral A Cigarra ea Formiga Produzido e dirigido por Ewerton de Castro – Centro Cultural Branco do Brasil – RJ, na Década de Noventa.

Música – Adelino Netto
Arranjos – Cleo Boechat & Adelino Netto
Piano e Teclados – Cleo Boechat
Caixa – ” snare drum” – Elcio Cafaro
Participação especial – Sylvia Massari
Gravação e mixagem – Drum Studio
Remasterização – Bob Bastos

Revisão – Maria José dos Santos. 

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Viração (Adelino Netto)

Quem me vê assim de fora
Nunca saberia o que se passa dentro
Valsas de amor sertões histórias
Cartas fugindo no vento
Quem me vê assim pra dentro
Nem imagina que eu já estive fora
Saltando as nuvens em cavalos alados
Andando sobre a água como equilibrista em fios de espuma
Ouvindo em silêncio o coração das moças tímidas na Praça Central
Quem me vê assim por fora
Nunca saberia como estou agora
Às vezes dentro
Às vezes fora
Tentando tocar no tempo

 

Viração

 Imáginarios – Adelino Netto em 07.05.2008

Fotografia – Patricia Simplicio

meuensaiovirtual.blogspot.com.br/ http://instagram.com/patriciasimplicio

 

Revisão – Maria José dos Santos. 

   

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Claudia Maria (Adelino Netto)

 Adelino Netto*

Talvez eu nunca devesse ter entrado naquela sala, às vezes me pergunto por quê?  Eu tinha apenas quatorze anos e vi toda minha vida projetada naqueles olhos que sorriam para mim como seu eu fosse o único. O sim, o não, os filhos, as mãos entrelaçadas e os sapatos, por mais que ela os trocasse, seriam sempre os pretos baixos do uniforme a guiar meus passos.  Seu nome, Claudia Maria, Claudia Maria Archetti, sétima série A, sala 12 do Colégio Dante Alighieri. O único lugar em que todas as vezes que vou a São Paulo, mesmo correndo, a trabalho, passo na porta, olhando pela janela do carro, esperando saltar no tempo e chegar, antes dela, ao portão para conduzi-la pelo braço ao atravessar a rua carregando os livros do colégio.

Imaginei esta cena tantas vezes que me pergunto se ela aconteceu e eu não percebi, distraído pelas tarefas cotidianas que nos habituamos a chamar de vida. É a vida… dizia meu pai desapontado com o vácuo entre a imaginação e uma colherada de arroz branco.

Nunca, nunca falei com ela, nem no dia em que nasci, na sala de fotografia do colégio com o brasão ao fundo, nem nos tantos outros em que corri estabanado somente para vê-la flutuar pelo jardim arrumando timidamente a blusa dentro da saia azul.

Poderia tê-lo feito quando tomei coragem e pulei a calçada caminhando em sua direção à espera de um milagre, mas seu perfume paralisante me proibiu.  Apenas sorri, ela sorriu de volta, e poucos minutos depois já se comentava, no pátio do colégio, que um rapaz uniformizado foi visto rindo alto e falando sozinho Trianon adentro, espantando os transeuntes que, por segurança, apertavam o passo.

Hoje, enquanto forço o pescoço para trás, na última esperança de vê-la no portão, penso: eu deveria ter dito alguma coisa, uma brincadeira, uma piada, um poema, deveria ter aberto uma porta, uma janela para que a luz entrasse.

Poderia, deveria… D’LUCA, o mestre de literatura que encantava os alunos pela inteligência e gosto pelo teatro, gritava pelos corredores… “O FUTURO DO PRETÉRITO É O TEMPO VERBAL MAIS PERIGOSO PARA QUEM DESEJA SER FELIZ, ELE ADIA ETERNAMENTE NOSSAS ESCOLHAS”.

Depois de amar, adiar é o único verbo de que tenho medo. Receio que minhas últimas palavras sejam: adiei o beijo, o toque das mãos delicadas, o sorriso amanhecendo… Às vezes me pego escolhendo, tentando encontrar as palavras que encerrarão este conto, mas no fundo, bem dentro, sei que só existem duas: Cláudia Maria.

 

*Para meu amor eterno Cláudia Barbosa de Souza.

 

 

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