Arquivo do mês: outubro 2013

Viração (Adelino Netto)

Quem me vê assim de fora
Nunca saberia o que se passa dentro
Valsas de amor sertões histórias
Cartas fugindo no vento
Quem me vê assim pra dentro
Nem imagina que eu já estive fora
Saltando as nuvens em cavalos alados
Andando sobre a água como equilibrista em fios de espuma
Ouvindo em silêncio o coração das moças tímidas na Praça Central
Quem me vê assim por fora
Nunca saberia como estou agora
Às vezes dentro
Às vezes fora
Tentando tocar no tempo

 

Viração

 Imáginarios – Adelino Netto em 07.05.2008

Fotografia – Patricia Simplicio

meuensaiovirtual.blogspot.com.br/ http://instagram.com/patriciasimplicio

 

Revisão – Maria José dos Santos. 

   

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Claudia Maria (Adelino Netto)

 Adelino Netto*

Talvez eu nunca devesse ter entrado naquela sala, às vezes me pergunto por quê?  Eu tinha apenas quatorze anos e vi toda minha vida projetada naqueles olhos que sorriam para mim como seu eu fosse o único. O sim, o não, os filhos, as mãos entrelaçadas e os sapatos, por mais que ela os trocasse, seriam sempre os pretos baixos do uniforme a guiar meus passos.  Seu nome, Claudia Maria, Claudia Maria Archetti, sétima série A, sala 12 do Colégio Dante Alighieri. O único lugar em que todas as vezes que vou a São Paulo, mesmo correndo, a trabalho, passo na porta, olhando pela janela do carro, esperando saltar no tempo e chegar, antes dela, ao portão para conduzi-la pelo braço ao atravessar a rua carregando os livros do colégio.

Imaginei esta cena tantas vezes que me pergunto se ela aconteceu e eu não percebi, distraído pelas tarefas cotidianas que nos habituamos a chamar de vida. É a vida… dizia meu pai desapontado com o vácuo entre a imaginação e uma colherada de arroz branco.

Nunca, nunca falei com ela, nem no dia em que nasci, na sala de fotografia do colégio com o brasão ao fundo, nem nos tantos outros em que corri estabanado somente para vê-la flutuar pelo jardim arrumando timidamente a blusa dentro da saia azul.

Poderia tê-lo feito quando tomei coragem e pulei a calçada caminhando em sua direção à espera de um milagre, mas seu perfume paralisante me proibiu.  Apenas sorri, ela sorriu de volta, e poucos minutos depois já se comentava, no pátio do colégio, que um rapaz uniformizado foi visto rindo alto e falando sozinho Trianon adentro, espantando os transeuntes que, por segurança, apertavam o passo.

Hoje, enquanto forço o pescoço para trás, na última esperança de vê-la no portão, penso: eu deveria ter dito alguma coisa, uma brincadeira, uma piada, um poema, deveria ter aberto uma porta, uma janela para que a luz entrasse.

Poderia, deveria… D’LUCA, o mestre de literatura que encantava os alunos pela inteligência e gosto pelo teatro, gritava pelos corredores… “O FUTURO DO PRETÉRITO É O TEMPO VERBAL MAIS PERIGOSO PARA QUEM DESEJA SER FELIZ, ELE ADIA ETERNAMENTE NOSSAS ESCOLHAS”.

Depois de amar, adiar é o único verbo de que tenho medo. Receio que minhas últimas palavras sejam: adiei o beijo, o toque das mãos delicadas, o sorriso amanhecendo… Às vezes me pego escolhendo, tentando encontrar as palavras que encerrarão este conto, mas no fundo, bem dentro, sei que só existem duas: Cláudia Maria.

 

*Para meu amor eterno Cláudia Barbosa de Souza.

 

 

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